Imposto de Renda: mudanças na tabela reacendem debate sobre justiça tributária no Brasil
Brasília — A atualização da tabela do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para 2025 reacendeu, nesta semana, um debate antigo no país: o peso da tributação sobre o trabalhador assalariado e a defasagem histórica das faixas de cobrança. A nova tabela, anunciada pelo governo federal, elevou a faixa de isenção para R$ 2.428,80, o que, segundo o Ministério da Fazenda, deve beneficiar diretamente cerca de 15 milhões de contribuintes.
A medida faz parte de um conjunto de ações voltadas à recomposição gradual do poder de compra das famílias de baixa renda, após anos de perdas inflacionárias. Ainda assim, especialistas alertam que a correção está longe de resolver os problemas estruturais do sistema tributário brasileiro.
Defasagem histórica continua sendo um desafio
Estudos de entidades independentes, como o Sindifisco Nacional, mostram que a defasagem acumulada da tabela ultrapassa 140% desde 1996. Isso significa que milhões de trabalhadores pagam imposto como se ganhassem mais do que realmente ganham, devido à falta de correções anuais compatíveis com a inflação.
Para o economista Luís Amaral, professor da Universidade de Brasília (UnB), as mudanças recentes são um avanço, mas insuficientes:
“Quando a correção não acompanha a inflação, o contribuinte é empurrado para faixas mais altas sem ter aumentado o poder de compra. É o chamado ‘imposto inflacionário’, que penaliza especialmente a classe média”, afirma.
Alíquotas continuam sem revisão
As alíquotas do IRPF — que variam de 7,5% a 27,5% — permanecem iguais desde 1996. Segundo especialistas, esse é outro ponto que deveria ser reavaliado dentro de uma reforma tributária mais ampla.
“Há 30 anos o Brasil mantém a mesma estrutura de alíquotas. Enquanto isso, países da OCDE têm sistemas mais progressivos, com mais faixas e diferenças proporcionais à renda real do contribuinte”, explica a tributarista Heloísa Sampaio.
A permanência da alíquota máxima de 27,5% faz com que profissionais com rendas relativamente modestas paguem a mesma taxa que contribuintes de alto padrão — um dos principais motivos de crítica ao modelo atual.
Quem deve ser beneficiado pela nova tabela
Com a atualização da faixa de isenção, trabalhadores que recebem até cerca de R$ 3.036 por mês, considerando o desconto automático de 25%, devem ficar isentos do IRPF na prática.
De acordo com o governo, a nova tabela busca aliviar sobretudo os trabalhadores de baixa e média renda, ampliando o número de brasileiros que deixam de pagar imposto mensalmente ou que pagarão menos ao fim do ano.
A Receita Federal estima impacto fiscal de cerca de R$ 10 bilhões por ano, que será compensado pelo aumento da arrecadação de impostos indiretos e pela recuperação econômica.
Debate sobre tributação de lucros e dividendos volta ao centro
Com a pressão por revisão das alíquotas e correção mais robusta da tabela, voltou também à pauta a discussão sobre a tributação de lucros e dividendos — isentos no Brasil desde 1995.
Para tributaristas, a revisão da tabela do IRPF sem mudanças na tributação do topo da pirâmide reforça as desigualdades do sistema.
“É injusto que um trabalhador que ganha R$ 5 mil pague imposto enquanto quem recebe dezenas de milhares em dividendos fique isento”, critica Heloísa Sampaio.
Já o Ministério da Fazenda afirma que o tema será debatido em fases futuras da reforma tributária, mas que não há previsão de envio ao Congresso ainda este ano.
Impacto na economia e no consumo
Analistas avaliam que o aumento da isenção deve ter efeito direto sobre o consumo, especialmente no comércio varejista. Com mais dinheiro disponível, famílias de renda mais baixa tendem a direcionar os recursos para alimentação, medicamentos e contas domésticas.
“É um estímulo importante num momento em que o país precisa aquecer a economia. O impacto talvez não seja gigantesco, mas ajuda a movimentar setores essenciais”, aponta o economista Júlio Pires.
O que muda para quem declara em 2026
Para quem faz a declaração anual, as mudanças devem surtir efeito no ajuste de 2026, referente ao ano-base 2025. A nova tabela será aplicada aos rendimentos tributáveis, ao cálculo de imposto devido e ao valor de eventual restituição.
A Receita Federal deve divulgar as novas regras de deduções ainda no primeiro trimestre do ano.
