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Dependência alcoólica cresce e desafia saúde pública

São Paulo — A dependência de bebidas alcoólicas é um fenômeno que atravessa classes sociais, idades e gêneros. Apesar de o álcool ser amplamente aceito em contextos culturais e sociais, seu consumo abusivo tem provocado um dos maiores desafios de saúde pública do país. Segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil ocupa posição preocupante no ranking mundial de consumo de álcool, com consequências graves para a saúde física, mental e para a estrutura familiar.

Nas últimas décadas, a relação dos brasileiros com o álcool tem mudado. Se antes o consumo era visto como parte da convivência social e de celebrações, hoje é cada vez mais percebido como um problema de saúde que requer atenção médica e política. A naturalização do consumo, associada à forte publicidade e ao acesso fácil às bebidas, faz com que a linha entre o uso recreativo e o abuso seja tênue.

A dependência alcoólica, ou alcoolismo, é uma doença crônica, reconhecida pela OMS, que afeta o cérebro e altera o comportamento. O indivíduo dependente perde o controle sobre o consumo e enfrenta sintomas físicos e psicológicos quando tenta interromper o uso. Apesar disso, muitos brasileiros ainda encaram o vício como falta de força de vontade, o que aumenta o estigma e dificulta a busca por tratamento.

O álcool como parte da cultura brasileira

O álcool está presente em diferentes aspectos da vida nacional. Seja na cerveja do churrasco de domingo, no brinde das festas ou na cachaça das festas juninas, a bebida é símbolo de confraternização. Essa aceitação cultural, no entanto, mascara os riscos envolvidos no consumo contínuo e excessivo.

Especialistas alertam que o consumo abusivo está profundamente enraizado na identidade social brasileira. A publicidade de bebidas alcoólicas, frequentemente associada a momentos de alegria e sucesso, reforça essa imagem positiva e atrai especialmente o público jovem. Pesquisas apontam que cerca de 50% dos adolescentes brasileiros já experimentaram bebidas alcoólicas antes dos 18 anos.

Para o psiquiatra Ricardo Menezes, especialista em dependência química da Universidade de São Paulo, “o Brasil vive uma epidemia silenciosa. O álcool é uma droga socialmente aceita, mas seus impactos são devastadores. Muitas famílias sofrem caladas, sem perceber que estão diante de uma doença que precisa de tratamento e acolhimento”.

Os impactos na saúde e na sociedade

O consumo excessivo de álcool está ligado a mais de 200 doenças e condições de saúde. Entre elas, estão doenças hepáticas, pancreatite, transtornos psiquiátricos, doenças cardiovasculares e diversos tipos de câncer. Além disso, o álcool é um dos principais fatores associados a acidentes de trânsito, violência doméstica e criminalidade.

Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 13% da população brasileira apresenta algum grau de dependência alcoólica. Estima-se que o país gaste bilhões de reais por ano com tratamentos, internações e campanhas de prevenção. “É um custo invisível, mas altíssimo”, explica a economista Mariana Duarte, pesquisadora da Fiocruz. “Cada internação, cada acidente, cada afastamento do trabalho gera impacto econômico e humano”.

Os reflexos sociais também são profundos. Famílias desestruturadas, violência doméstica e negligência parental estão entre as consequências mais observadas. A psicóloga Eliane Costa, que atua em um centro de recuperação em Belo Horizonte, afirma que o vício raramente atinge apenas o usuário. “É uma doença que se espalha. O dependente sofre, mas quem está ao redor sofre junto. O álcool corrói lares inteiros”, diz.

O aumento entre jovens e mulheres

Historicamente, o alcoolismo era mais comum entre homens adultos. Contudo, pesquisas recentes apontam crescimento significativo do consumo entre mulheres e jovens. O marketing direcionado, as mudanças de comportamento social e o estresse cotidiano são fatores que contribuem para essa tendência.

Estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostram que o número de mulheres que consomem álcool regularmente dobrou nos últimos 15 anos. Entre os jovens, o fenômeno do “binge drinking” — o consumo intenso em um curto período — se tornou comum em festas universitárias e eventos. Essa prática aumenta o risco de intoxicação, acidentes e comportamento violento.

A estudante de 22 anos Carla Rodrigues relata que começou a beber aos 16 anos, influenciada por amigos. “No começo era só diversão. Mas, durante a pandemia, comecei a beber sozinha, quase todos os dias. Quando percebi, já não conseguia dormir sem tomar uma dose”. O relato de Carla reflete o crescimento do consumo de álcool durante o isolamento social, quando o estresse e a ansiedade levaram milhões de brasileiros a recorrerem às bebidas como forma de alívio emocional.

Os desafios do tratamento

Superar a dependência alcoólica é um processo complexo, que envolve tratamento médico, psicológico e apoio familiar. No Brasil, há uma carência de políticas públicas específicas e de centros especializados. Muitas vezes, a internação é o último recurso, mas nem sempre o mais eficaz. O acompanhamento contínuo e o suporte social são essenciais para a recuperação.

Programas como os Alcoólicos Anônimos (AA) desempenham papel importante ao oferecer apoio emocional e troca de experiências. “O tratamento só funciona quando o paciente reconhece a doença e aceita ajuda. O apoio da família é determinante”, afirma a psicóloga Eliane Costa.

Nos últimos anos, o governo federal lançou campanhas de conscientização e reforçou o investimento em centros de atenção psicossocial (CAPS), mas especialistas afirmam que a cobertura ainda é insuficiente. O país possui menos de 3 mil unidades para atender mais de 200 milhões de habitantes.

Políticas públicas e responsabilidade das empresas

Apesar de avanços pontuais, o Brasil ainda carece de políticas sólidas de controle do consumo de álcool. A legislação proíbe a venda de bebidas para menores de idade e restringe a publicidade em alguns horários, mas as medidas são facilmente burladas. Além disso, campanhas de prevenção são esporádicas e carecem de continuidade.

O sociólogo Luís Faria destaca que a responsabilidade não deve recair apenas sobre o Estado. “As empresas de bebidas têm papel crucial. Elas investem milhões em marketing, mas muito pouco em prevenção. É preciso repensar essa lógica”, afirma. Faria defende a criação de fundos obrigatórios para campanhas educativas e programas de tratamento, financiados pela indústria alcoólica.

Em outros países, políticas mais restritivas surtiram efeito. A Escócia, por exemplo, introduziu o preço mínimo por unidade de álcool, o que reduziu significativamente o consumo em poucos anos. Já na Islândia, programas de educação preventiva em escolas diminuíram o número de adolescentes que bebem regularmente.

O papel da mídia e da educação

A cobertura jornalística sobre o alcoolismo tem papel fundamental na conscientização pública. Mostrar histórias reais, divulgar dados e questionar políticas públicas ajuda a quebrar o silêncio em torno do tema. Ao mesmo tempo, a educação nas escolas é uma ferramenta poderosa para prevenir o consumo precoce.

Segundo a pedagoga Patrícia Alves, incluir o tema nas aulas de saúde e cidadania pode fazer diferença. “Os jovens precisam entender o que o álcool faz no corpo e na mente. Informação é a base da prevenção”, diz.

Além disso, campanhas midiáticas podem ajudar a desmistificar o consumo e reduzir o glamour associado às bebidas. A psicóloga Eliane Costa acredita que “mostrar as consequências reais do abuso é mais eficaz do que apenas proibir”.

Histórias de superação

No meio das estatísticas frias, há histórias de transformação. O músico André Lima, de 38 anos, passou uma década lutando contra o alcoolismo. “Eu perdi amigos, emprego e quase a vida. Só quando cheguei ao fundo do poço percebi que precisava de ajuda”. Após três anos de tratamento, André está sóbrio e hoje trabalha em um projeto social que oferece oficinas de música para pessoas em recuperação.

“A arte me salvou. E hoje quero ajudar outros a encontrarem seu caminho”, diz ele. Casos como o de André mostram que, embora o tratamento seja difícil, a recuperação é possível quando há apoio, persistência e políticas eficazes.

O futuro da luta contra o alcoolismo

Combater a dependência de bebidas alcoólicas exige uma abordagem múltipla: prevenção, tratamento, políticas públicas e mudança cultural. A sociedade brasileira ainda tem um longo caminho a percorrer para enxergar o álcool como uma substância que, apesar de socialmente aceita, traz riscos profundos.

Enquanto a publicidade continuar exaltando a bebida como símbolo de sucesso e alegria, e o consumo for tratado com normalidade, os desafios permanecerão. A mudança começa com a conscientização — e essa é uma responsabilidade compartilhada entre governos, empresas, escolas, famílias e a mídia.

No fim, reconhecer o problema é o primeiro passo. O álcool, quando usado de forma irresponsável, destrói vidas, famílias e comunidades inteiras. O enfrentamento dessa epidemia silenciosa é um dever coletivo, que passa pela empatia e pelo compromisso com a vida.

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